Opinião – Novos Mundos

Thamires Mattos

Ficção – seja científica, fantástica ou especulativa – é meu gênero preferido de entretenimento. Livros, séries e filmes que exploram possibilidades de passado, presente e futuro abrem nossos olhos para problemáticas e belezas da vida real. O aqui e agora passa a ser abrangente e mágico para fãs do gênero. Tudo é possível em nossas mentes.

Em geral, as grandes temáticas da ficção giram em torno do “bem maior”: liberdade, justiça, democracia. Um dos maiores clássicos da ficção é “Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley. Nele, crianças não são concebidas, e sim criadas em laboratórios; decantadas ao invés de paridas. Embora a história tenha em sua base uma sociedade que mudou a compreensão sobre fertilidade e valor humano, temos poucas mulheres expoentes na narrativa. É, no mínimo, incômodo ver uma temática que permeia a vida pessoal e social de tantas mulheres ao redor do mundo ser tratada como parte exclusiva do mundo dos homens.

Divulgação: BBC

Esse tema é subvertido em outra obra de ficção científica: a série Orphan Black (BBC America, 2013-2017). Nesse universo, a clonagem humana artificial existe, e mulheres são criadas em laboratório. Não há preocupação real com o bem-estar das clones e nem de suas gestoras. Todas as mulheres clonadas – exceto as gêmeas Sarah e Helena – são inférteis e possuem uma doença fatal. Elas são experimentos, e, por isso, não possuem plena autonomia sobre seus corpos. No entanto, quando se encontram, tudo começa a mudar.

Além de ser expoente no campo da ficção científica televisiva, Orphan Black nos mostra um mundo em que a sororidade é a única alternativa contra o sexismo sistêmico vindo de setores civis, científicos ou governamentais. Mulheres geneticamente iguais ainda são muito diferentes entre si; suas criações, gostos e talentos diferem. Por isso, os laços entre elas se tornam a força motriz de uma transformação social e científica. Sem dar spoilers, é seguro dizer que, em Orphan Black, as criaturas superam seus criadores. 

Ao contrário de muitas outras histórias do gênero, as protagonistas não agem como “escolhidas”, tal como os personagens principais de “O Senhor dos Anéis”, “Duna”, ou, até mesmo, “1984”. Elas não são profetas ou ativistas de “carreira”; no entanto, mostram que o próprio ato de existir é um desafio para certos grupos. Ser mulher, por exemplo, é lutar contra preconceitos considerados “naturais”, palpites não requeridos sobre seu próprio corpo e expectativas irreais sobre seu comportamento. Portanto, produtos como Orphan Black nos mostram que a realidade de minorias sociais não está tão distante da ficção científica. Assim, também enxergamos que a saída para os nossos problemas é resistirmos unidas. Não somos propriedades. Não somos coadjuvantes nas histórias de quem tem poder. Somos pessoas completas, belas e criadas para a vida que escolhemos.

Nosso objetivo é fazer com que você também se sinta protagonista, aí na sua história. Se liga nessa seleção de séries, também protagonizadas por mulheres.

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