FIFA 21 traz mulher como narradora e fomenta a inclusão feminina nos games

Com a primeira narradora feminina de sua história, a espanhola Nira Juanco, jogo inova e impulsiona a representatividade de mulheres em novos espaços.

Nira Juanco, narradora fará história ao se tornar a primeira mulher a narrar jogo de futebol digital (Divulgação).

Os jogos eletrônicos movimentam milhões de dólares todos os anos, sempre inovando nas narrativas e tecnologias usadas, com gráficos cada vez mais realistas e um aumento significativo na jogabilidade, tentando atrair cada vez mais consumidores.

Mas mesmo com todas as mudanças que aconteceram na tecnologia dos games, especialmente a partir dos anos 2000, as mulheres continuavam à margem na hora da criação dos roteiros e de suas participações, sendo inexpressivas para a história ou sexualizadas. 

Mestranda em Tecnologia da Informação e Comunicação, Paula Casagrande Bristot desenvolve sua pesquisa na área de jogos eletrônicos e representatividade feminina. A pesquisadora acredita que a falta de grandes papéis para mulheres nos jogos é um exemplo de como a figura feminina é vista pela sociedade.

“Falta representatividade, tem alguns fatores, como o estigma do maior consumidor de jogos ser o público masculino, assim como as mulheres não serem vistas como capazes de estarem em papéis de destaque. Tudo é reflexo da nossa sociedade e de questões culturais, que acabam aparecendo nos jogos”, comenta a pesquisadora.

A evolução de Lara Croft mostra a hipersexualização da personagem no início, até termos de fato uma representação mais agradável da exploradora (Divulgação)

Dentro das quatro linhas digitais

Nos futebol virtual não foi diferente e, somente em 2016, o FIFA (EA Games), maior jogo em vendas da categoria, inseriu pela primeira vez personagens femininas, sendo elas as atletas que compunham 12 seleções mundiais (Austrália, Brasil, Canadá, China, Inglaterra, França, Alemanha, Itália, México, Espanha, Suécia e Estados Unidos).

Desde então, o número de seleções aumentou e com o acréscimo de Noruega, Escócia, Japão e Nova Zelândia, hoje são 16 países representados no jogo. É importante ressaltar que por questões burocráticas e de contrato, a seleção brasileira usa apenas jogadoras genéricas, não sendo possível jogar com nossa camisa 10 Marta e companhia.

Além disso, o modo história, que foi inserido no jogo em 2016, na edição 17 do game, recebeu dois anos depois uma mulher como protagonista. A personagem é Kim Hunter, que é irmã de outro personagem do modo, Alex Hunter.

No jogo, Kim é uma das melhores amigas da craque norte-americana Alex Morgan

Com Kim é possível jogar apenas amistosos e competições que envolvam as seleções nacionais, já que os clubes femininos ainda não conquistaram seu espaço no jogo. A presença de Kim e os avanços da EA mostram um acréscimo importante para a representatividade feminina dentro da modalidade, pequenos passos que acompanham a possibilidade de que mulheres consigam ainda muito mais espaço dentro do jogo. 

Inovando ainda mais, no próximo jogo da série, que será lançado em 6 de outubro de 2020, a versão de narração espanhola trará Nira Juanco como a primeira narradora mulher da história de um jogo de futebol eletrônico. Selecionando o espanhol como idioma, jogadores do mundo todo terão acesso ao trabalho de Nira.

Representatividade 

Em 2018, a Fox Sports, que hoje pertence a Disney, foi pioneira no Brasil na narração feminina, com diversas narradoras sendo utilizadas nos jogos da Copa do Mundo de Futebol da Rússia. Manuela Avena é jornalista e foi uma das narradoras da Copa pela emissora, e vê a chegada da voz feminina em jogos eletrônicos com bons olhos e acredita que isso incentiva outras meninas a ocuparem espaços no esporte e no jornalismo esportivo.

“Já chegou no Esports a primeira narração feminina, narração que também enfrenta obstáculos. Eu como narradora enfrentei, e ainda enfrento, barreiras, juntamente com outras mulheres que sonham em ser narradoras e, cada espaço conquistado para esse objetivo é muito importante. A chegada de uma mulher em um espaço tão masculino, como são os esportes no geral e também no esporte eletrônico, é de suma importância porque você permite também que outras meninas sonhem com isso e aí é aquela questão de representatividade: quanto mais mulheres estão fazendo o que diziam que mulheres não poderiam fazer, é o que abre possibilidades para que outras meninas possam sonhar também e realizar seus sonhos um dia”, afirma a jornalista 

“Quanto mais mulheres estão fazendo o que diziam que mulheres não poderiam fazer, é o que abre possibilidades para que outras meninas possam sonhar e realizar seus sonhos um dia”

Manuela Avena

Para Manuela, a representatividade é essencial no processo de identificação de outras meninas, inclusive um incentivo para que as mesmas mantenham firmes seus sonhos de conquistar espaço dentro dos games. “É significativo a gente ter [representatividade] tanto praticando o esporte quanto na narração, e é um fator importante para encorajar outras meninas para seguir nesta mesma profissão”, enfatiza.

Manuela se tornou a primeira mulher a narrar a final da Copa do Nordeste pela TV Aratu, filiada da SBT

A jornalista ainda nos lembra de reconhecer o esforço feito, ao longo de muitos anos, por mulheres que se sacrificaram pela modalidade. Hoje, esse espaço conquistado por elas permite que outras mulheres possam desenvolver sua carreira dentro do esporte. Inclusive, ela confessa que nunca havia imaginado a narração como um caminho profissional. 

“É motivo de orgulho ver o quanto o futebol feminino vem crescendo em várias áreas e isso é fruto de muita dedicação, de muito esforço de mulheres que abriram mão de um monte de coisas e foram lutar. Certamente para as meninas que jogam jogos [eletrônicos] e podem ver ídolas tanto em campo quanto na narração, se por acaso for da vontade delas seguirem esse sonho, elas sabem em quem se espelhar, sabem que é possível sonhar. Quando você não sabe que um caminho existe, quando você não tem referência, você não se imagina muito naquilo. Muitos me perguntam se eu sonhava em ser narradora desde pequena e não, eu não sonhava, eu também não imaginava que isso poderia acontecer. Eu entendi que isso era possível depois de adulta, quando comecei a trabalhar na área de jornalismo esportivo e compreendi que existe espaço para uma mulher ser narradora. Mas antes disso não, porque os espaços eram preenchidos em sua maioria por homens, então não existia uma referência para mim nesse quesito”, explica a jornalista.

Assim como a voz de Manuela foi necessária para ganhar espaço dentro do meio, a de Isabelly Moraes também foi. Pioneira na narração feminina no Brasil, Isabelly foi a primeira mulher a narrar um jogo e um gol de Copa do Mundo na história da televisão brasileira. O feito aconteceu na partida de abertura do torneio de 2018, Rússia x Arábia Saudita, também pela Fox Sports. Ela acredita que qualquer oportunidade de representatividade deve ser agarrada. 

“Toda oportunidade de representatividade é importante. Então, na forma que eu narrei no rádio mineiro pela primeira vez, a primeira vez também na Copa do Mundo, a narração de esportes eletrônicos de uma mulher também é super importante. A voz da mulher tem que ser ouvida e, quando a voz da mulher é ouvida, ela gera a representatividade, ela se torna espelho para alguém. O que garante que o ciclo se renove é a representatividade. Então, o que vai garantir que a gente sempre tenha mulheres narrando é exatamente mulheres narrando”, explica Isabelly.

“A voz da mulher tem que ser ouvida. Quando a voz da mulher é ouvida, ela gera representatividade, ela se torna espelho para alguém”

Isabelly Morais
Isabelly fazendo história ao narrar o primeiro gol da Copa do Mundo de 2018

Com a discussão da representatividade feminina ganhando força nos últimos anos, não é difícil se deparar com manchetes dizendo que uma mulher fez, pela primeira vez, tal coisa. Apesar de achar que é assustador por estarmos em um momento tão avançado da sociedade, Isabelly entende que é melhor termos esta representatividade agora do que não termos nunca. 

“Quando a gente vai vendo a primeira mulher aqui, primeira mulher ali, é um pouco assustador né, ver os primeiros casos só agora. Mas ainda assim, nos dá um pouco de esperança de que todo esse nosso passado de muito atraso, que isso vai ser encerrado exatamente por mulheres que aceitam em ter a oportunidade de ocupar esses espaços, seja nos esportes eletrônicos ou em qualquer outro tipo de esporte e modalidade”. 

Entretanto, a pesquisadora Paula Bristot alerta que, mesmo sendo importante, esta movimentação do FIFA pode ser apenas representatividade de mercado, ou seja, apenas para se inserir em um grupo, sem de fato querer investir nisso e ajudar uma causa.

“A indústria dos games, apesar da gente ver alguns avanços, ainda tem receio de investir mais pesado na representatividade, como no caso do próprio FIFA que tenta inserir alguma representatividade, mas ao mesmo tempo não investe muito no marketing disto. Por exemplo, a capa do jogo sempre traz jogadores masculinos e, nesse caso da primeira narradora feminina, não acho que houve muita divulgação sendo que, provavelmente, ela vai estar como uma entre outras opções de narradores masculinos. Aí é mais para gerar um engajamento do tipo ‘olha estamos fazendo a diferença’, mas no fundo nem tanto”, afirma a pesquisadora.

Mesmo com representantes femininas, a capa e a publicidade do jogo deste ano são feitas com a imagem do atacante francês Mbappé (Divulgação)

Mas mesmo podendo ser apenas uma estratégia de marketing, a inovação e a oportunidade proporcionada pelo game podem impulsionar a paixão de muitas meninas pela narração a se tornar, futuramente, uma profissão. Manuela acredita que o jogo pode ser uma forma de conquistar mais o carisma do público sobre a narração feminina, mostrando que as mulheres têm competência para ocuparem este espaço.

“E aí você vai conquistando mais pessoas e que essas pessoas vão propagando a sua mensagem de “deixa a mulher fazer o que ela quiser”, “deixa ela trabalhar”, “deixa ela ter competência e poder mostrar seu trabalho”, “dá uma oportunidade para ela estar ali e mostrando o que ela saber fazer de melhor”. Eu acho que essas barreiras são assim mesmo, porque você vai quebrando um pouquinho do machismo, um pouquinho do preconceito e mais pessoas vão pensando a respeito daquilo, vão maturando a sua opinião, vão evoluindo e mudando a nossa sociedade. Hoje é permitido sonhar, hoje as mulheres podem se dedicar a isso em várias áreas e, com muita competência, elas podem chegar ali, tomar o lugar delas, com propriedade, que é o que a gente sempre busca. A gente busca espaços para poder estar ali por conta da nossa capacidade, não por conta de pedido de alguém. Estamos ali exercendo a nossa profissão com muita competência, porque a gente merece estar ali”

Isabelly também crê que a novidade pode ajudar a levar meninas para esta área e ocupar novos espaços, não só no esporte, faz com que a mulher entenda que o lugar dela é onde ela quiser.

“Ter mulheres narrando também planta uma sementinha nas meninas, além de mostrar para quem quer que isso é possível, que também gera interesse. Então, a menina que cresce ouvindo uma mulher narrando futebol, ela vai entender que aquele espaço também é dela, ela vai se sentir muito confortável também por ter outras mulheres como ela que gostam de futebol e ela vai entender que as mulheres podem ocupar muitos espaços diferentes em qualquer área. Esse que é o valor da representatividade”.

Campanha da Fox no ano de 2018 traz uma criança como narradora, exemplificando o impacto que suas ações podem ter

Veja também:

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s