A arte de colecionar

Pesquisa aponta que geeks gastam 40% mais que a média nacional de consumidores.

Desde as mais antigas civilizações o ato de colecionar acompanha o homem. Se hoje temos museus para visitar e conhecer culturas antes da nossa, foi graças a um colecionador decidido que reuniu moedas, tapetes, esculturas, quadros e afins, porque de alguma maneira aquilo fazia sentido para ele.

Legião Nerd/Pinterest.

Quando mergulhamos no universo geek isso se torna ainda mais evidente. Quem não gosta colecionar coisas bonitinhas daqueles personagens que amamos? Seja seu box de Harry Potter ou sua coleção de coisas de Star Wars, qualquer colecionador geek têm completa paixão e zelo pelo seu acervo.

“Para muitos pode parecer exagero, mas para nós colecionadores, cada peça nova na coleção é uma conquista, uma felicidade, principalmente quando se trata de algum personagem com um significado especial para nós”, conta a estudante Rayanne Biserra, do @colecionacomigo, colecionadora há quatro anos.

Conta no Instagram onde a Rayanne compartilha sua experiência como colecionadora.

Minha coleção me faz muito feliz. Cada colecionável tem sua própria história, e alguns são muito, mas muito especiais. Cada vez que olho para os expositores, bato o olho em algum colecionável e lembro logo de toda sua trajetória.

Rayanne Beserra.

A Ray, como prefere ser chamada, encontrou no Pinterest os famosos bonequinhos de Funko Pops, e se apaixonou. Em 2017, depois de ganhar seu primeiro pop, nunca mais parou de colecionar os personagens que ama.

Hoje, além de uma paixão, é algo que faz sentido para ela. No começo de 2019, a jovem decidiu focar em itens específicos para a coleção e optou então pela Disney.  “Foi nessa época que criei meu perfil no Instagram, alguns meses se passaram, ganhei mais conhecimento sobre os pops, sobre raridade e valores e acrescentei mais alguns temas no foco”, explica. Junto com o irmão, que coleciona pops da Marvel, a coleção da família chega a aproximadamente 250 pops.

“Colecionar os pops me fez e faz muito bem, sempre fui uma pessoa muito tímida, então quando criei o Instagram voltado para os Pops, comecei a me “soltar” mais, isso tem me ajudado muito nessa questão da timidez”, explica Ray. Além do sentimento de realização, ela comenta que colecionar e compartilhar isso na internet acrescentou na sua vida. “Conheci muita gente bacana, entrei em grupos, fiz amizades que mesmo a distância, conversamos todos os dias, trocamos experiências, e isso tem feito muito bem pra mim”, confessa.

A história da Yasmin Martins, do @itsmechaseedition, se parece com a da Ray. Ambas colecionam bonecos Funko Pop hoje, mas nem sempre foi assim para a Yasmin, que já possui um histórico de colecionadora desde a infância. “Eu gosto de colecionar desde que eu era criança, as minhas lembranças das primeiras coleções eram de coisas acessíveis e fáceis de colecionar, como brindes do Mc Lanche Feliz e tazos que vinham nos salgadinhos, e a medida que eu fui crescendo eu continuei colecionando só que mudando o foco”, explica Yasmin.

Na adolescência, Yasmin também chegou a colecionar revistas, CD’s, disco de vinil, livros etc. Hoje, já adulta, ela e o marido colecionam juntos as figuras de Funko Pop.

Conta da Yasmin, no Instagram.

Qualquer colecionador sempre vai encher a boca para falar da sua coleção. Os sentimentos envolvidos em adquirir um colecionável, muitas vezes esperar a encomenda chegar, abrir a caixa e então ver seu item é indescritível. “A sensação de adquirir um colecionável novo é sempre diferente. Tem aqueles que a gente tem um carinho especial por nos fazer lembrar de algum momento, ou então porque você ganhou de presente de alguém, ou então é algum que você sempre quis e quando consegue se sente realizado”, completa Yasmin. O ato de colecionar traz essa carga emocional totalmente atrelada, não só aos sentimentos mas também, ao psicológico no colecionador.

Comentários negativos

O dicionário define colecionar como reunir em coleção, mas coleção não está somente atrelado a cultura geek. Muita gente coleciona, sem saber que coleciona, sacou?

Gostar de uma marca de tênis, camisa de futebol, determinado tipo de modelo de roupa ou um tipo específico de papel, entre inúmeras outras coisas, faz de você um colecionador, mas nem todo mundo vê dessa maneira. Por relacionar coleção ao geek, os colecionadores ouvem críticas desnecessárias sobre a maneira como gastam seu dinheiro. Colecionar é diferente de comprar em exagero.


Transtorno do Comprar Compulsivo (TCC) uma doença real, que exige tratamento psicológico. A psiquiatra Ana Zanchet explica mais sobre esse distúrbio aqui, clique para ler:


“Já ouvi coisas do tipo: gastar tudo isso em um boneco, prefiro gastar com outras coisas, você não está gastando demais etc.”, confessa Ray. Por falta de informação, muitas pessoas não entendem esse universo dos colecionáveis. “Acabam julgando sem ao menos tentar conhecer um pouquinho”, completa. A jovem ainda explica que nem sempre os seus itens de coleção são comprados em shoppings, por exemplo, onde o preço, na maioria das vezes, são extremamente altos se comparados aos da internet. “95% dos meus colecionáveis são comprados na internet, em grupos de WhatsApp, Facebook, desapegos, lojas do Instagram, e por aí vai, onde os preços são bem mais baixos, e a variedade de modelos é enorme”, explica Rayanne. Ela ainda indica que todo consumidor deve sempre fazer uma boa pesquisa antes de comprar qualquer item.

A arte de colecionar movimenta não só o coração de um colecionador, mas o mercado financeiro também. Em 2019, uma pesquisa realizada pela Rakuten Digital Commerce mostrou que o público que compõem a economia geek gasta até 40% a mais que a média nacional.

Um exemplo desse público é Maurício Ribeiro, proprietário da Geek Hero Store, que viu nessa área um potencial para investir além de consumir. Um geek de carteirinha, Maurício misturou coisas que ele já era apaixonado. “Vi que neste nicho daria para eu começar, pois era algo que sempre fui apaixonado: comércio venda e compra, conhecer pessoas e a junção da cultura pop”, conta.

Você já viu uma conversa onde as duas pessoas falam de algo que são extremamente apaixonadas? A relação do Maurício com seus clientes é mais ou menos nessa vibe. “O público é animado, sempre simpático e interessado. É um nicho de clientes que amam forte os colecionáveis, você sente o tom pela conversa, sabe!? Cada comportamento é único, mas no geral, é o público que me identifico, então é fácil a troca de ideias”, explica o lojista.

Especialistas estimam que, atualmente, o mercado geek já movimenta mais de R$ 138 bilhões e as expectativas são que esses números continuem crescendo ao longo dos próximos anos. Essa conjunção de fatores faz com que o potencial de negócios geeks seja muito interessante, dentro e fora do país.

ecommerce brasil.

Essa relação que ele consegue desenvolver com o público acaba sendo boa para ambos os lados. “A pessoa não quer tratamento padrão, o corre do dia a dia faz isso acontecer, pagou levou. É muito frio isso. O cliente chega buscando algo que faz muito sentido na vida dele. Busco entender com a pessoa a importância e me empolgo junto”, conta.

A expectativa criada na compra, a experiência, o sentimento de importância, a reciprocidade, a conversa, a singularidade de cada história, faz com que o colecionável comprado agregue toda essa experiência boa à memória do cliente. O comerciante também preza em manter a cultura do cliente colecionador. “Vejo em cada feedback a alegria e satisfação, o olho no olho e aquela conversa gostosa, conhecer o cliente e tornar-se um amigo, isso não tem dinheiro que pague”, disse.

A pesquisa ainda ressalta que a maior parte do público geek é masculina, mas essa não é a realidade da loja do Maurício. “60% do meu público é feminino, esse perfil segue de meninas mais novinhas, uns 10 a 15 anos, que adquirem acompanhadas de um responsável, até as mulheres de 20 a 40 anos. Sendo hétero, homo, bi, solteiras, namorando, casadas”, explica Maurício.

Entre os itens mais consumidos pelo público feminino, segundo dados da loja, se destacam itens da Disney, Harry Potter, algum herói ou alguma série do momento.

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