Um fenômeno chamado Fanfiction

Conheça tudo sobre esse universo infinito de histórias, onde qualquer enredo é possível e não há limites para a imaginação.

Créditos: 500px

Imagine esse cenário: você acabou de ler uma saga incrível, com um universo riquíssimo e personagens que você quase considera amigos. Você inclusive viu todas as adaptações que esse livro ganhou, assistiu todos os vídeos sobre o tema no Youtube, tentou falar com outros sobre essa franquia, mas não encontrou pessoas que gostem o bastante disso para quererem conversar ou abrir uma discussão relevante. E daí vem aquele vazio, porque você quer falar disso pro mundo e compartilhar essa experiência, você quer saber a visão de outro personagem que não foi muito explorado nos livros e ver o que aconteceria se tudo fosse diferente.

Tudo isso e muito mais é possível com as fanfictions. Novos universos e pontos de vistas são criados diariamente, personagens secundários podem ser protagonistas, casais improváveis podem acontecer, misturas com mais de uma franquia são melhores do que você imaginava e você ainda pode encontrar uma comunidade que possui os mesmos gostos que você. Você pode expandir suas leituras e ler incontáveis histórias sobre seu tema favorito ou pode até mesmo criar seu próprio enredo da forma que quiser. Não há limites quando se trata de fanfics e com isso, elas fazem com que as histórias que amamos nunca tenham realmente um fim.

“#fanfics Porque a história não tem fim até dizermos que tem.” Créditos: Revista Jovem Geek

O que são fanfictions?

Muitas pessoas já ouviram falar de fanfictions. Também conhecidas por abreviação como fanfics e fics, o termo fanfiction é a junção de “fan”, que significa fã, com “fiction”, que significa ficção. Então fanfic literalmente significa “ficção de fã”. Fanfics são histórias ficcionais criadas por fãs e direcionadas para outros fãs, disponibilizadas em sites específicos ou até mesmo adaptadas para postagens em redes sociais. 

As fanfics tem como objetivo criar um universo paralelo em relação a uma obra original ou complementar essa obra. Existem incontáveis tipos, gêneros, subgêneros, categorias e sites de fics, e essas histórias contribuem para que uma obra, um personagem ou um universo, não tenha fim. Para que sempre tenha uma história que precise ser contada e lida.

Talvez você nunca tenha lido uma fanfic, mas é bem provável que já ouviu falar sobre ou até tenha aquele amigo “fanfiqueiro”. E caso não conheça esse vasto universo alternativo de histórias, o Portal Protagonista está aqui para apresentá-lo da melhor forma possível e mostrar a importância que as fanfictions tem para a cultura pop, geek e para o enaltecimento de obras originais. 

Linha do tempo 

As fanfictions surgiram muito antes da popularização da internet ao redor do mundo, que surgiu no final da década de 90. As histórias criadas por fãs se propagaram nos anos 70, por meio das fanzines, com homenagens à Jornada nas Estrelas (Star Trek, 1966). Fanzines – também chamadas de fan magazines – são publicações não oficiais produzidas e editadas por fãs e entusiastas, que podem conter informações, curiosidades e até mesmo fanfictions e que são passadas de fã para fã. Elas se tornaram muito populares por Star Trek – com a fanzine de título “Spockanalia”-, mas depois se popularizam com todo tipo de conteúdo, desde ficção científica até temáticas como livros, filmes e jogos.

Foto de fanzines. Créditos da imagem: Catraca Livre

Com a chegada da internet e propagação da mesma, o acesso se tornou mais rotineiro e ficou mais fácil para os fãs se conectarem e interagirem entre si. As fanfictions podiam ser encontradas em vários sites e blogs e a quantidade de criações só foram aumentando. Foi aí que surgiram os primeiros sites específicos de fanfictions, como o FanFiction.Net, fundado em 1998. Já aqui no Brasil, demorou um pouquinho para que sites brasileiros voltados para fanfics fossem lançados, como o Nyah! Fanfiction, que surgiu em 2005. Com o passar dos anos, vários sites de fics foram surgindo e as mesmas se tornaram algo cada vez mais presente na vida do fã, ao ponto de serem conhecidas até entre pessoas que não leem esse tipo de conteúdo.

Conversa entre duas amigas do mesmo fandom que leem fanfics. Créditos: Portal Protagonista

Quem é fanfiqueiro, com certeza entendeu todo o diálogo, ou pelo menos a maioria. Mas quem não tem contato com as fanfics, não entendeu a maior parte do que foi dito. Por isso criamos um guia para quem não conhece as gírias e termos mais importantes das fanfictions. E várias dessas também são usadas no mundo geek em geral, então é um conhecimento que não pode ser deixado de lado. 

Agora que você já sabe o significado dos termos mais importantes e mais usados no mundo das fanfics e no universo geek, não deixe de ouvir nosso Protcast – o podcast do Portal Protagonista – sobre a desvalorização das fanfics. Nesse episódio conversamos com Kaline Bogard, psicóloga, escritora de fanfics e moderadora de um dos sites de fics mais famosos do Brasil, o Nyah! Fanfiction. Também conversamos com Erica Mathias, estudante de Letras e escritora da fanfic mais popular do Brasil, que conta a história de um romance entre o apresentador global Faustão e a cantora internacional Selena Gomez.

A importância das fanfics

Mesmo depois de tantos anos fazendo parte da vida de fãs do mundo todo, as fanfictions ainda são mal vistas por muitos e ainda há, no meio geek, pré conceitos do que as fanfics realmente são. Existem vários pontos que fazem com que esse tipo de história seja visto negativamente. O primeiro ponto é porque são criadas por fãs, pessoas apaixonadas, mas que na maioria das vezes não possuem uma especialização como autores, então são vistos como amadores e não profissionais. O segundo é porque não tem dinheiro envolvido, todo trabalho é feito de forma independente pelo fã, e esse ponto complementa bastante o primeiro, já que faz com que as fanfics sejam tratadas como algo banal. O terceiro ponto se dá pelas comparações com as obras originais pelas quais as fanfics são inspiradas.

Mesmo marcando presença na vida de fãs há tanto tempo, ainda há uma lacuna em relação às pesquisas sobre o assunto. Stella Hadassa França é pesquisadora na área de fanfictions e afirma que as plataformas virtuais dedicadas às fanfics contam com milhões de leitores e escritores, e ainda assim, estudos sobre esse assunto são novidade. “Para os nativos digitais, é fácil ter acesso a esse tipo de texto, mas para as pessoas que têm pouca familiaridade com o universo on-line e com a cultura pop, a situação é diferente. Um dos objetivos da minha pesquisa de mestrado foi apresentar esse tema a acadêmicos e a professores, e a recepção foi excelente. O que falta, além de mais divulgação, é as pessoas perceberem que fanfic não é só um entretenimento jovem. É uma complexa prática de letramento, de desenvolvimento de leitura e de escrita. O meio acadêmico está cada vez mais receptivo ao uso de tecnologia na educação, então a tendência é que a fanfiction deixe de ser vista apenas como um passatempo, sendo mais estudada por pesquisadores.”

Várias obras e adaptações famosas começaram como fanfics; como Cinquenta Tons de Cinza (2011), da E. L. James, que era uma fanfiction da Saga Crepúsculo (2005), da Stephenie Meyer; After (2014), da Anna Todd, que era um romance com o cantor Harry Styles, ex-integrante da Boyband One Direction; e Orgulho e Preconceito e Zumbis (2009), de Seth Grahame-Smith, que era uma fanfic de Orgulho e Preconceito (1813), obra de Jane Austen. Até mesmo autores famosos mundialmente começaram escrevendo fanfictions, como é o caso de Cassandra Clare, que escrevia fanfics de Harry Potter (1997) antes de criar uma história e um universo original, conhecido como Os Instrumentos Mortais (2007), uma série literária de fantasia e ficção que já possui adaptações em filme e série.

Mesmo com essas e várias outras referências famosas, tanto as fanfics quanto os escritores e os leitores não recebem o reconhecimento merecido. Falar que um livro ou conto “parece até fanfiction” ainda é uma forma de desmerecimento e depreciação, mesmo que várias histórias criadas por fãs sejam melhores que livros publicados e famosos. Autores de fanfics escrevem toda uma história – às vezes em questão de dias – e não esperam receber nada em troca além dos elogios de seus leitores, mas ainda assim são desvalorizados por seu trabalho. E leitores de fanfictions são diminuídos ao ponto de não serem considerados leitores “de verdade”.

“O fato de uma pessoa escrever ficção tendo como base uma obra preexistente não deveria ser mal visto. Os escritores de fanfic assumem a difícil tarefa de expandir um universo ficcional preexistente, e, nesse processo, criam tramas, enredos, cenários e personagens totalmente novos. É preciso imaginação e habilidade linguística para fazer algo assim. Escritores e leitores de fanfic fazem parte de uma prática de letramento que deveria ser mais valorizada na escola e na sociedade em geral”, relata a Stella Hadassa.

Uma pesquisa feita no final de 2017 – pelo Tumblr – por um grupo de pesquisadores que estudam Comunidades de Fanfiction, por meio do Human Centered Data Science Lab, da Universidade de Washington (University of Washington), recebeu 1888 respostas e fez um censo com informações demográficas sobre fãs, fandom e comunidades envolvidas com fanfics. Você pode acessar a pesquisa clicando aqui!

O portal Jornalismo Júnior, da USP, também possui um infográfico com informações coletadas da pesquisa citada acima e de sites especializados em fanfics, como o Archive of Our Own, FanFiction.Net e Spirit. Você pode acessar o infográfico clicando aqui.

A pesquisa – FanFiction Data Science – mostra que 79% dos consumidores de fanfics são mulheres, 23% são pessoas não-binárias, 4% são homens e 2% preferem não dizer o gênero. Já era notável que as fanfics são mais populares no universo feminino e a pesquisa serviu para concretizar isso. O número gigantesco de mulheres que consomem e criam esse conteúdo pode ser explicado devido a falta de representatividade feminina nas obras e adaptações. Com isso, as autoras dão mais voz e protagonismo às personagens, consertam equívocos e tem um espaço próprio para serem quem realmente são, sem julgamentos, de forma anônima ou não. O alto número de pessoas não-binárias presentes em comunidades de fics também pode ser explicado pela falta de representação que esse grupo enfrenta no meio geek.

Dados de distribuição de gênero. Créditos: FanFiction Data Science

Quanto à escrita de fanfics, segundo a pesquisa, “a distribuição é muito mais uniforme nas cinco opções de frequência. Cerca de um terço dos participantes escreve fic pelo menos uma ou duas vezes por semana, enquanto outro terço escreve fic com menos frequência (algumas vezes por mês ou menos). O terço final não tinha escrito fic ou não estava mais escrevendo fic no momento da pesquisa.”

Dados de escrita de fanfictions. Créditos: FanFiction Data Science

A parte da pesquisa voltada à atividades relacionadas à fanfictions, como a leitura, mostrou que ler fanfiction era o lazer mais popular entre os participantes, o que não é uma surpresa. Com isso, 66,4% disseram que leem fanfics todos os dias ou quase todos os dias, 22,6% leem uma ou duas vezes por semana, 9,8% leem algumas vezes por mês ou menos e apenas 0,9% disseram que liam antigamente, mas não leem mais.

Dados sobre leitura de fanfictions. Créditos: FanFiction Data Science

Isso nos faz refletir sobre um outro fator: muitas pessoas ainda acham que os leitores de fanfics não podem ser considerados leitores “de verdade”. Para eles, literatura só se remete a livros publicados, sejam eles clássicos ou famosos. Esse isolamento e hostilidade feita para com os leitores de fanfictions apenas estimula o prejulgamento e atrapalha o crescimento do número de leitores. A pesquisa Retratos da Leitura no Brasil mostrou, em 2019, que o brasileiro lê, em média, 5 livros por ano. Em um país onde o número de leitores é baixíssimo – inclusive, o Brasil perdeu cerca de 4,6 milhões de leitores entre 2015 e 2019 -, qualquer leitura deveria ser considerada válida e apreciada sem julgamentos, incluindo as fanfictions.

Para a pesquisadora Stella Hadassa, com toda certeza, as fanfictions ajudam no hábito de leitura. “Os professores se preocupam por acharem que seus alunos não gostam de ler. Mal sabem eles que o mesmo aluno que reclamou sobre não gostar de ler os livros da escola é capaz de devorar 100 páginas de fanfiction em um dia. A leitura tem que ser significativa. Os jovens querem ler coisas de seu interesse, e é justamente isso o que a fanfiction oferece. Esse é um ótimo caminho para que crianças e adolescentes descubram o prazer da leitura.”

Quanto aos fandoms, a pesquisa mostra uma variedade de comunidades de fãs e isso também reflete na leitura de fanfics, já que geralmente o fã vai preferir ler uma fic com um tema voltado para o fandom que ele faz parte ou vai preferir enaltecer as histórias de seus próprios colegas de fandom, por conta da familiaridade e união entre esses fãs.

Créditos: FanFiction Data Science

Um dos sites mais famosos e antigos do mundo totalmente voltado para fanfictions, o FanFiction.Net, disponibiliza e atualiza constantemente os dados relacionados às seções mais populares. Mais precisamente: os 20 principais fandoms, com o maior número de histórias publicadas no site. Os fandoms são: 

O FanFiction.Net também hospéda uma das maiores fanfics já escritas na história, The Subspace Emissary’s Worlds Conquest, uma fic de Super Smash Bros. (1999) escrita por AuraChannelerChris, que possui mais de 4 milhões de palavras e ainda está sendo escrita. A fanfic mais longa do site é Ambience: A Fleet Symphony, uma fic da série de anime Kantai Collection (2015), escrita por Hieda no Akyuu, que tem 4 milhões e meio de palavras.

Podemos ver que o trabalho de um autor de fanfics não é fácil e muito menos é valorizado. Mas hoje em dia muitas coisas estão mudando e as chances de uma fanfic virar um livro publicado não são mais tão raras como antes. O Wattpad, que é uma das maiores e mais famosas plataformas de histórias do mundo, por exemplo, tem parcerias com grandes empresas, como a Hulu, Sony Pictures e Syfy, e com editores como a Macmillan, Anvil Publishing e Penguin Random House UK. Dessa forma, as histórias postadas no site podem virar livros publicados ou adaptações como filmes e séries.

As fanfictions também podem dar uma perspectiva de futuro, um plano de carreira. Muitos escritores de fics escolhem suas profissões depois que percebem que seu hobby – a escrita – pode ser mais do que um lazer. Vários autores famosos começaram escrevendo fanfics; como Meg Cabot, escritora da série O Diário da Princesa (2000), que fazia fanfics de Star Wars (1977); Babi Dewet, autora brasileira da trilogia Sábado à Noite (2019), que originalmente era uma fanfiction da banda McFly; Natália Marques, também brasileira, escreveu A Infiltrada (2011), que era uma fanfiction da Saga Crepúsculo; e Nancy Springer, uma fã do famoso detetive Sherlock Holmes e do universo canon criado por Arthur Conan Doyle, que criou Enola Holmes (2006), obra que recentemente ganhou uma adaptação no serviço de streaming Netflix e também era uma fanfic antes de virar livro.

Fatos e Curiosidades: Fanfictions

Claro que há autores que não apoiam e não gostam que seus livros virem fanfics; como é o caso de George R.R. Martin, autor das Crônicas de Gelo e Fogo (1996), que originou a série Game of Thrones (2011); e Anne Rice, autora de Entrevista com o Vampiro (1976), que inclusive fez uma nota oficial em seu site e processa sites e pessoas que publicam histórias inspiradas em suas obras. Stella Hadassa conta que “ao escreverem sobre uma obra de ficção, os fãs demonstram o quanto ela é relevante, e isso deveria ser lisonjeador para os autores originais. Infelizmente alguns deles não gostam da ideia de “emprestar” seus personagens aos fãs, mesmo sabendo que as fanfics não têm fins lucrativos.”

Mas, assim como tem alguns (poucos) que não apoiam esse tipo de escrita, há também autores que incentivam as fanfics, principalmente com suas obras originais. Como é o caso de J.K. Rowling, autora da série Harry Potter, Stephenie Meyer, autora da Saga Crepúsculo e Neil Gaiman, autor de Coraline (2002), Good Omens (1990) e Deuses Americanos (2001).

Para quem acha que as fanfics “mancham o nome” da obra original, está muito enganado. As fics ajudam a movimentar ainda mais o nome da obra canon e do autor, fazendo com que fiquem ainda mais famosos. O último livro de Harry Potter, por exemplo, foi publicado em 2007, mas as fanfics relacionadas ao menino que sobreviveu ainda são as mais famosas, ocupando o primeiro lugar no número de fanfics escritas ou maior fandom. E é claro que as fanfictions também geram muito dinheiro, como a maioria dos entretenimentos, porém esse dinheiro não vai para o autor da fanfic, mas sim para quem criou o universo original. Então, é claro que parte da fortuna bilionária da autora de Harry Potter também se deve às fics, que não deixaram que seu universo terminasse lá em 2007. É importante citar que muitas pessoas podem ler uma fanfic antes e decidir conhecer o universo original (canon) só depois.

Homem pensava que estava lendo Harry Potter, mas era uma fanfic

Tudo isso prova que as fanfics se movimentam por amor! Os leitores e os autores são, mais do que qualquer coisa, fãs. Para mostrar a importância dos fãs e das fanfictions para com um universo, a série Supernatural (2005) – que conta a história dos irmãos Sam e Dean Winchester, que caçam monstros e criaturas sobrenaturais como uma forma de “negócios da família” – fez um enredo especial em seu episódio de número 200, que é o quinto da décima temporada. Esse episódio foi intitulado como “Fan Fiction” (Ficção de Fã, em português) e contou com referências aos ships (casais) presentes no fandom e nas fics da série, como Destiel (Dean e Castiel) e Sastiel (Sam e Castiel), além da quebra da quarta parede e dos protagonistas vendo como suas histórias são adaptadas por fãs. É válido lembrar que as fanfics de Supernatural também estão entre as mais lidas e o fandom é o 4º maior no FanFiction.Net. Além disso, uma série com 15 temporadas não se mantém sem a ajuda e movimentação dos fãs – principalmente por meio das fics -, então a série usou o episódio 200 como uma forma de agradecimento aos seus fiéis admiradores.

Conhecendo o lado de uma escritora de fanfics

– Uma conversa com Amanda Krappitz, @aufderwelt

Amanda Krappitz é escritora e embaixadora do Wattpad. A mesma possui 15 fanfics publicadas na plataforma – a mais famosa com quase 700 mil visualizações -, com um foco maior em bandas de K-pop (música pop coreana) e seus integrantes. Também conhecida como @aufderwelt, ela equilibra uma vida de ficwriter e embaixadora com enfermeira e estudante de neurologia. Para conseguir conciliar tudo, Amanda precisa ter organização e tarefas diárias fixas. “Eu acordo e procuro dormir sempre no mesmo horário, seguindo as 8hrs recomendadas. Claro que, nem sempre isso é possível, pois trabalho com turnos e horários complicados, mas procuro fazer o meu melhor para conseguir manter isso. Eu dedico uma hora diária às minhas tarefas como embaixadora e três horas diárias à escrita. Após essas quatro horas em frente ao computador, eu desligo o mesmo e faço outras coisas para distrair a minha mente, normalmente eu leio ou estudo.”

Sua parte favorita em ser escritora é a liberdade em abordar temas que não seriam bem vistos se não fossem descritos em uma fanfiction. “Acho muito bom essa possibilidade de explorar a sua imaginação e criatividade. No momento, eu escrevo fanfics sobre K-Pop, algo que me domina e me deixa usar mais a minha imaginação. Onde o único limite é a privacidade de um “ídolo” e é onde eu decido parar de escrever se cruzar esse limite.”

Vivemos em um tempo em que a internet domina tudo e que muitas vezes as pessoas são cruéis por trás de suas telas, já que essas podem fazer comentários sem serem identificadas. No universo das fanfics não é diferente. “Eu acho que as pessoas sabem como usar e aproveitar cada plataforma, no entanto, muitas acham que é mais fácil usar toda a acessibilidade que temos para ferir outras pessoas. Ouvimos muitos discursos sobre amar e ajudar o próximo, mas quando você está na frente de um computador, soa mais divertido criticar do que acolher outra pessoa, principalmente se ela não segue o que você entende por “certo”, conta Amanda.

As comunidades e os fandoms presentes em sites de fanfics são conhecidas pela cumplicidade, respeito e empatia, além do incentivo para com os escritores. Amanda relata: “Eu não tenho experiências ruins online e todos os comentários que leio em minhas histórias são positivos. Claro que sempre haverá alguém que sabe mais ou que entende melhor, mas até hoje nenhuma dessas pessoas sentiram necessidade em me ofender. Sou muito grata pelo respeito que conquistei dentro do Wattpad dos usuários e o respeito que conquistei entre os meus leitores, que é algo bem recíproco. Então mesmo que alguém me ofenda, eu procuro tratar essa pessoa com carinho, pois, nunca sabemos o peso que ela carrega sobre si. Em alguns casos, agressividade é sinônimo de dor e entender isso, torna tudo melhor para ambos os lados.”

“Eu recebo milhares de mensagens falando coisas lindas que me emocionam, recebo depoimentos de pessoas que precisavam ler o que eu escrevi. Mesmo que para mim não tenha sentido, a pessoa que está lendo precisa daquilo. Costumo dizer que “eu escrevo o que a sua alma precisa ler.” Então se por algum motivo você encontrou as minhas histórias, me deixa segurar sua mão e te guiar para um mundo onde você poderá esquecer a loucura da realidade.” – Amanda Krappitz.

Ainda há um preconceito muito grande em relação à fanfictions, já que muitas pessoas dizem que fanfics não podem ser consideradas exemplos de leitura (como acontece com obras já publicadas) e muitos autores não recebem o devido reconhecimento por seus trabalhos. E Amanda diz que sempre bate na tecla de que todo trabalho, seja ele ficção ou não, merece reconhecimento. “Muitas pessoas possuem experiências ruins, pois já leram histórias ruins, e eu entendo, porém existe muita fanfic boa por aí. Você não é obrigado a consumir um tema que não gosta, no entanto, você tem a obrigação de respeitar e não julgar o trabalho alheio. Se você, como leitor, não aceita ofensas contra um escritor que escreva algo “original”, você tem a mesma obrigação de respeitar os escritores de fanfics. Muitas pessoas começam com fanfic por diversão e acaba se tornando algo profissional, muitas começam para desabafar e sim, muitas são pré-adolescentes que usam o português de uma forma errada ou por vezes falta conhecimento, mas a pessoa está escrevendo e através disso ela está aprendendo. Todo escritor começa do zero e se aperfeiçoa através de erros.”

Ela continua: “O que eu mais gosto de ouvir é: ‘Eu amo 50 Tons de Cinza’, ‘Ah, eu amo A Barraca do Beijo’. Mas ninguém se lembra que estas histórias eram fanfics e se tornaram filmes, ninguém aceita o fato de que fanfic é e sempre será o caminho para descobrir obras maravilhosas. Algumas fazem muito sucesso e outras fazem sucesso após alguns anos, mas não isso não significa que a história é ruim, apenas que as pessoas possuem gostos diferentes e isso não é algo ruim. Escritores precisam de diversidade, sem isso, escrever é algo entediante e super difícil.”

Amanda também deixa um conselho para quem deseja ser escritor: “Não desista! Escreva, releia, corrija, melhore, revise, escreva, aprenda, estude e escreva. Não desista!” Ela diz que o começo da escrita é uma ótima chance para se encontrar através de fanfics; com a definição do tema favorito; com os testes de melhores momentos; qual é seu público e para qual idade deve escrever, etc. “Você aprenderá o que ainda não sabe e se encontrará em momentos de alegria. Mesmo que as pessoas insistam em falar que fanfics não são dignas, não dê ouvidos. Lembre-se dos motivos que te fez começar, se foi por diversão ou profissionalismo, se agarre à isso e siga em frente.”

“Eu costumo pensar assim: Tenho um objetivo e ele sempre será dar alegria aos meus leitores. Quero ser a pessoa que produz algo bom, que eles possam desligar a mente e sorrir lendo coisas bobas que não aconteceriam em um mundo real. Quero ser a pessoa que faz corações baterem forte e ser a pessoa que te obriga a deixar comentários “surtados” pedindo por atualizações. Quero ser o ponto de apoio quando o mundo não te vê, quero te ouvir e acolher os seus sentimentos, usando as minhas palavras e todo o meu carinho. Eu quero ser o melhor de mim para você, usando o que eu mais tenho de precioso, a minha criatividade.” – Amanda Krappitz

Questões legais

Essa é uma parte das fanfictions que muitas pessoas ainda tem dúvidas, já que os ficwriters usam personagens, pessoas e universos originais como base para seus próprios enredos e podem até ficar famosos por isso. Então a fanfic se caracteriza como uma forma de plágio ou apropriação do produto da propriedade intelectual?

De acordo com a Advogada Mayara Noemi, “Em geral, não. Visto que a fanfic cria uma história nova, não copia. Podendo então esta ser considerada como obra original. Porém, existe uma questão a ser considerada. Deve-se primeiro ser analisado qual a inspiração da fanfic, se é uma obra fictícia (livros, séries de Tv, filmes, etc.) ou se é baseado em pessoas reais. Essa diferença é fundamental para que haja uma correta aplicação da lei, sendo essa ou de direitos autorais ou dos direitos de personalidade.”

A advogada complementa a questão sobre figuras públicas poderem processar escritores de fanfics, que usam seus nomes e características em histórias alternativas, dizendo que “no direito, podemos dizer que tudo depende. Nesse caso, não se aplicaria a lei de direitos autorais, mas as do direito de personalidade. Sendo assim, caso a pessoa que foi retratada se sinta incomodada com o uso de seu nome ou características, pode solicitar que essa fanfic seja retirada de circulação, podendo também, em caso de ação judicial, pleitear por danos morais e etc.”

Mas esse tipo de caso é raríssimo de acontecer. “Atualmente não temos casos no Brasil, onde o autor de uma fanfic foi processado por alguém que se sentiu violado em seus direitos autorais. O que pode ocorrer, é se caso houver inspiração de pessoas reais, o pedido de retirada de circulação e indenização por danos morais.”, diz Mayara Noemi.

E os autores de fanfics também estão protegidos por lei. Segundo a advogada, “a fanfic é considerada como obra original, uma obra literária. Sendo esta, protegida pela Lei nº. 9.610/98, a Lei de Direitos autorais. Assim, se o autor de uma fanfic tiver a sua obra copiada, implica em violações de direitos autorais.” Ela complementa dizendo que: “A fanfic ocupa um espaço muito importante como obra intelectual, sendo considerada como criação. Levando pela ótica de que as obras derivadas das fanfics são recriações fictícias baseadas em algum personagem ou grupo já existente. Mas é uma recriação, não sendo considerada como cópia.” Alguns autores preferem registrar suas fanfics, mas não é algo essencial. “O autor não teria nada a perder fazendo esse registro, porém, não é obrigatório. Visto que, a proteção não depende de registro.”, conclui a advogada Mayara Noemi.

Créditos: Revista Jovem Geek

As fanfictions, mais do que qualquer coisa, são uma parte essencial na vida de um fã. Elas tocam o sentimental e se propagam por meio do amor, admiração, esperança e desejo que uma obra não tenha um fim. E enquanto existir fanfics – com pessoas dispostas a escrever histórias e outras querendo lê-las -, um universo fictício não vai ter fim e sempre terá algo que ainda precise ser imaginado, contado e lido.

“A fanfiction é importante porque a ficção em si é importante culturalmente. Ninguém vive sem histórias, sem fantasiar a própria vida, sem narrar e escutar narrativas. O que esse tipo de texto oferece ao fã é a oportunidade de mergulhar mais fundo no universo ficcional que ele admira, reinventando-o por meio da escrita.”

– Stella Hadassa

Um comentário em “Um fenômeno chamado Fanfiction

  1. Wow amo a escritora Amanda Krappitz mulher maravilhosa como pessoa e escritora.
    Adorei essa entrevista e também adorei essa reportagem né de alguns escritores 💜

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